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juliana
quinta-feira, 9 de julho de 2009 19:12
Juliana havia começado a trabalhar como ascensorista num shopping. Subia e descia elevadores em período integral. Estávamos sem nos falar por cerca de uma semana, o motivo eu não sabia. Passamos os últimos meses discutindo e brigando à toa, no dia seguinte nem lembrávamos o porquê. Eu estava em casa, bêbado, quando decidi fazer as pazes. Atravessei a cidade de ônibus e trem. A parte estranha é que só então entendi que estava indo acabar com ela. Não iria esperá-la fazer isso. Se alguém tivesse que ser a vítima que fosse ela. Cheguei ao shopping e procurei por Juliana. Apertava o botão do elevador e esperava a porta abrir, a ascensorista dizia desce ou sobe e eu dizia, não obrigado. O shopping era grande e complexo, havia um bocado de elevadores e blocos. Perguntei a um segurança se ele conhecia Juliana. O segurança disse que tinha umas garotas novas no bloco C1. Fui então ao bloco C1. Depois de chamar alguns elevadores e recusá-los, encontrei Juliana.
- Podemos conversar?
Não respondeu.
- A que horas você sai?
- Em qual andar o senhor vai descer? - perguntou Juliana, de maneira seca, polida.
- No térreo.
Paramos no térreo, desci do elevador. Apertei o botão e esperei o elevador voltar.

Juliana, sentada numa cadeira giratória, com os olhos nos botões do painel do elevador o tempo todo, fingiu não me ver. Esperei os passageiros que haviam embarcado no térreo saírem. Quando restamos nós ali dentro, eu disse:
- Quero me desculpar, porra (não sabia se devia pedir desculpas). Tenho que falar algo pra você.
- Em qual andar o senhor vai descer?
- No segundo.
Desci no segundo andar. Apertei o botão. Esperei.
Juliana, mexendo nos cabelos, disse:
- Se você realmente tiver algo pra me falar, saio às oito e meia.
Desci em algum andar. Atravessei a cidade de ônibus e trem. Voltei às oito e meia. Quando entrei no elevador ela disse que precisava estender o horário até às dez.
- Não quero mais você. Precisamos acabar — finalmente falei.
Juliana chupou o ar, parecia um riso, se mexeu na cadeira. Olhou para mim quase de perfil, sorrindo, disse:
- Você é gozado.Termino com você e um mês depois você aparece dizendo que quer me largar.
Aquilo era uma surpresa para mim.
- De que porra você tá falando?
- Em qual andar o senhor vai descer?
- Garagem.
Desci no piso da garagem. Apertei o botão. Dessa vez demorou mais. O elevador subiu cheio. Esperei todos saírem.
- Quando você acabou comigo?
- Quinta-feira, você me ligou do churrasco do Paulo, a gente discutiu, eu terminei. Você apareceu na frente da minha casa no meio da madrugada, bêbado, berrando. Meu pai disse pra você ir embora, você desatou a chorar, abraçou ele pedindo desculpas. Meu pai te levou de carro pra casa. Ele disse que você parecia uma menina soluçando. Foi chato, mas acho fiz a coisa certa.
- Você me chutou por telefone?
- Em qual andar o senhor vai descer?
- Qualquer um.
Saí do elevador. Talvez Juliana estivesse certa, minha cabeça não andava muito boa.
Atravessei a cidade de ônibus e trem. Sentei no sofá da sala, liguei a tevê, abri uma cerveja. Fiquei bêbado. Bebi mais. Por que, afinal de contas, inventei de sair de casa?